Novo filme aposta em uma narrativa mais humana e deixa o multiverso em segundo plano para focar no amadurecimento do herói
Depois de anos mergulhando no multiverso, Homem-Aranha: Um Novo Dia faz exatamente o movimento que essa franquia precisava. O diretor Destin Daniel Cretton deixa boa parte das grandes ameaças cósmicas de lado para contar uma história mais contida e humana. O resultado é um filme que equilibra ação, humor e drama com muita eficiência, colocando Peter Parker novamente no centro da narrativa e lembrando por que ele continua sendo um dos personagens mais queridos da Marvel.
A história apresenta um Peter muito mais amadurecido. Depois dos acontecimentos de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, ele agora precisa conviver diariamente com a consequência da decisão mais difícil de sua vida: permitir que todos esquecessem sua existência. O peso dessa escolha acompanha praticamente toda a narrativa e transforma este em um dos filmes mais dramáticos do personagem dentro do Universo Cinematográfico da Marvel.
Fotografia que parece ter saído diretamente dos quadrinhos
Um ponto que chama muita atenção, é a fotografia assinada por Brett Pawlak. O colaborador frequente de Cretton, aposta em uma imagem mais escura e saturada que lembra bastante a estética de Homem-Aranha 2 (2004), estrelado por Tobey Maguire. A direção entrega uma Nova York vibrante, mas ao mesmo tempo melancólica, criando uma identidade visual bem fiel aos quadrinhos. Em diversos momentos, a forma como o Homem-Aranha balança entre os prédios, pousa sobre construções ou interage com a cidade dá a impressão de que estamos vendo páginas das HQs ganhando vida.
Esse cuidado visual representa uma mudança muito bem-vinda para a Marvel. Depois de produções recentes que acabaram se perdendo em uma névoa de CGI, incluindo o próprio Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, é um alívio encontrar um filme que aposta em uma imagem nítida, bonita e convidativa.
Grandes poderes também significam aceitar quem quer ficar ao seu lado
O roteiro trabalha muito bem essa ideia de responsabilidade. Se em Sem Volta para Casa Peter escolhe abrir mão de tudo por acreditar que era o único caminho possível, agora o filme mostra o quanto ele sofre por carregar esse peso completamente sozinho. Depois de tanto apanhar, física e emocionalmente, ele começa a entender que os outros também podem escolher permanecer ao seu lado, mesmo conhecendo os riscos. Os diálogos que ele mantém por telefone com uma policial reforçam constantemente essa reflexão. O tradicional conceito de “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” continua presente, mas agora ganha uma nova camada emocional.
Grande parte desse peso dramático é desenvolvido através da personagem de Sadie Sink, cuja presença funciona como o principal motor emocional da trama. Enquanto Peter tenta capturá-la e entender seu verdadeiro papel na história, ele também precisa lidar com a dor de ver seus antigos amigos seguindo suas vidas normalmente, sem qualquer lembrança de quem ele foi.
Tom Holland, Sadie Sink e Jon Bernthal criam uma dinâmica natural
Tom Holland entrega, mais uma vez, uma atuação emocional e convincente. O ator consegue transmitir todo o desgaste psicológico de Peter sem deixar de lado o carisma que sempre definiu sua versão do personagem. A dinâmica entre Peter e Frank (Jon Bernthal) também funciona muito bem. Além de render ótimos momentos de humor, os dois criam situações engraçadas que surgem naturalmente, sem parecerem forçadas ou interromperem o peso dramático da narrativa.
O filme também acerta quando a ação entra em cena. As coreografias das lutas são excelentes, criativas e muito bem filmadas, aproveitando toda a mobilidade do Homem-Aranha. Os vilões clássicos dos quadrinhos aparecem ao longo da história, mas cumprem uma função diferente do esperado. Eles existem muito mais para fortalecer o contexto da narrativa e enriquecer o universo do personagem do que para serem o foco principal do conflito.
Vale a pena assistir?
Mesmo que alguns temas ainda remetam a histórias anteriores do herói e façam surgir a vontade de ver a franquia explorando territórios ainda mais inéditos, Homem-Aranha: Um Novo Dia representa exatamente o tipo de evolução que muitos esperavam para a versão de Tom Holland. É sua história mais madura até agora e também a primeira vez em que Nova York realmente parece um universo vivo, povoado por personagens e desafios próprios do herói.
Daniel Cretton conseguiu resgatar aquilo que tornou Peter Parker um dos heróis mais populares dos quadrinhos. Ao trocar o espetáculo do multiverso por uma história mais íntima, emocional e madura, o longa encontra um excelente equilíbrio entre ação, humor e drama. É uma produção que entende que o maior poder do Homem-Aranha nunca foi lançar teias, mas continuar seguindo em frente mesmo quando tudo parece perdido.
Homem-Aranha: Um Novo Dia já está em cartaz nos cinemas brasileiros.