Novo filme do diretor de ‘Gladiador’ impressiona pela cinematografia grandiosa e troca a ação desenfreada por uma história centrada nas relações humanas em um mundo devastado
Dirigido por Ridley Scott, ‘Ponto Sem Retorno’ acompanha Hig (Jacob Elordi), um piloto que sobreviveu a uma pandemia de gripe que matou grande parte da humanidade e agora vive isolado em um aeroporto abandonado no Colorado. Ao lado do cachorro Jasper e de Bangley (Josh Brolin), um ex-fuzileiro naval, ele tenta sobreviver em um mundo dominado pela escassez e por grupos violentos. Quando uma transmissão de rádio surge em meio ao silêncio, Hig decide deixar a segurança do seu refúgio em busca de outros sobreviventes e da possibilidade de encontrar alguma forma de vida além daquela que conhece. Baseado no livro de Peter Heller, o elenco ainda conta com Margaret Qualley, Guy Pearce, Benedict Wong e Allison Janney.
Um pós-apocalipse diferente do esperado
A primeira coisa que chama atenção na produção é a maneira como Ridley apresenta esse mundo destruído. O diretor deixa que o vazio tenha espaço com estradas abandonadas, construções tomadas pelo tempo e grandes áreas sem qualquer sinal de vida, criando uma sensação de isolamento que acompanha os personagens durante boa parte da história. Essa cinematografia funciona especialmente bem nas tomadas aéreas. Quando o avião sobrevoa aquelas paisagens, a câmera mostra a dimensão do território e faz com que Hig pareça ainda menor diante de tudo aquilo. Os cenários ganham bastante força em uma tela grande e (dica), em uma sessão IMAX, essa sensação fica ainda mais evidente.
A história está mais interessada nas pessoas
Quem espera um thriller pós-apocalíptico movido por ação pode encontrar uma proposta diferente. Há confrontos, ameaças e momentos em que a tensão cresce bastante, mas Scott passa muito mais tempo observando seus personagens do que colocando-os em situações de combate. O luto é uma presença constante. Hig tenta lidar com a perda da esposa e com tudo aquilo que desapareceu junto com a antiga vida.
A escolha por um ritmo mais contido faz com que os momentos de ação tenham um peso maior. Em dois momentos específicos, a produção realmente acelera. Ainda assim, o filme não abandona sua preocupação com o lado emocional. Mesmo durante os momentos mais intensos, as relações entre os personagens continuam sendo importantes para aquilo que está acontecendo.

A tensão também vem da vulnerabilidade
Uma das situações mais angustiantes envolve Cima, personagem interpretada por Margaret Qualley. Em determinados momentos, ela se vê cercada por homens em um ambiente no qual qualquer demonstração de vulnerabilidade pode representar perigo. A direção consegue transmitir esse desconforto sem pesar na violência. A sensação lembra alguns momentos de ‘Extermínio’, principalmente pela expectativa de que alguma coisa pode acontecer, e a própria situação já cria uma tensão desconfortável para quem está assistindo.
A história também consegue surpreender porque não segue exatamente o caminho que parece indicar no começo. Cada novo lugar apresenta uma possibilidade diferente de perigo, e o ambiente anárquico faz com que os personagens precisem tomar decisões constantemente. Há momentos em que a ameaça parece bastante próxima e outros em que o silêncio volta a dominar o espaço. O problema é que algumas dessas situações são facilitadas demais para os protagonistas. Em um mundo em que a maior parte da população desapareceu e os recursos deveriam ser extremamente limitados, existe uma quantidade de alimentos, combustível e outros suprimentos que parece confortável demais. Essa facilidade acaba diminuindo um pouco o peso da sobrevivência apresentado pelo próprio cenário.
Conforme a jornada avança, surge uma sensação de que os personagens percorreram uma distância enorme sem que tudo aquilo tenha consequências proporcionais. Muitas coisas acontecem, novos lugares aparecem e diferentes ameaças são apresentadas, mas parte desses acontecimentos parece desaparecer muito rápido da narrativa.
O veredito
‘Ponto Sem Retorno’ funciona melhor quando Ridley Scott deixa de lado a obrigação de entregar um grande espetáculo pós-apocalíptico e concentra sua atenção nos personagens. Por outro lado, o roteiro exige uma dose considerável de boa vontade. A quantidade de recursos disponíveis para os protagonistas não combina completamente com a realidade de escassez apresentada, enquanto algumas situações parecem resolvidas com a facilidade que só existe porque acompanhamos os personagens principais.
Ainda assim, há mérito na escolha de não transformar o fim do mundo em uma desculpa para empilhar cenas de ação. Scott está mais interessado no que resta das pessoas depois da catástrofe do que na própria catástrofe. É uma experiência sincera, mas irregular: tem uma bela mensagem sobre luto, companheirismo e esperança, embora não consiga fazer com que todos os elementos de sua jornada tenham a mesma força.