REVIEW | ‘Sobrenatural: Agora Entre Nós’ tenta renovar o terror de O Além

Novo capítulo da franquia de terror apresenta uma nova família, amplia as possibilidades de O Além e aposta no choque entre o mundo dos vivos e o reino das almas perdidas

Após arrecadar mais de US$ 740 milhões nas bilheterias mundiais, a franquia ‘Sobrenatural’ retorna aos cinemas com uma nova história e uma protagonista em uma proposta diferente. Em “Agora Entre Nós”, Amelia Eve interpreta Gemma, uma jovem mãe que cria a filha na mesma casa onde cresceu e descobre ter a capacidade de viajar para O Além, o reino purgatorial habitado por almas perdidas. Quando uma força maligna passa a persegui-la, ela percebe que seu poder vai muito além de entrar naquele lugar: Gemma também consegue trazer para o mundo real aquilo que encontra por lá.

A maneira como o terror brinca com a passagem entre os dois mundos ajudou a criar imagens que ficaram marcadas no gênero. O problema é que, depois de tantos capítulos explorando conceitos semelhantes, a fórmula começa a mostrar sinais de desgaste. O novo filme até tenta mexer nessa estrutura, criando uma inversão dessa relação, principalmente porque o perigo deixa de estar restrito ao outro lado e passa a invadir diretamente a realidade dos personagens. A questão é que a novidade parece maior no conceito do que na execução. Mesmo quando a história tenta explorar esse novo funcionamento, muitas das situações ainda parecem construídas a partir dos mesmos mecanismos que a franquia utiliza há anos. O resultado é uma sensação constante de familiaridade, como se estivéssemos assistindo a uma tentativa de reorganizar peças que já conhecemos.

O Além já não assusta como antes

Sempre houve algo assustador e característico na aparência das entidades de ‘Sobrenatural’. Os rostos deformados, a textura craquelada e o acabamento propositalmente pouco natural ajudavam a criar uma estética própria para os fantasmas e demônios daquele universo. Neste capítulo, porém, essa característica acaba ficando excessivamente evidente. Em vez de transmitir a sensação de uma criatura realmente estranha, algumas das maquiagens parecem apenas maquiagem craquelada. O efeito que antes contribuía para o desconforto agora pode chamar mais atenção para o trabalho de caracterização do que para o próprio horror. Essa exposição também prejudica um pouco o mistério. Quanto mais o filme mostra suas criaturas e insiste em determinados elementos visuais, menos espaço sobra para a imaginação. O medo costuma funcionar melhor quando o público não consegue enxergar completamente aquilo que está diante dele.

Isso não significa que o filme seja incapaz de assustar. Uma das melhores sequências acontece em um consultório odontológico, em uma situação que transforma um ambiente em um lugar de agonia. A cena consegue trabalhar o desconforto físico e a expectativa pelo que pode aparecer, fazendo com que o espectador realmente se contorça na cadeira. É nesse tipo de momento que a produção mostra o potencial que poderia ter explorado mais. Mas, infelizmente, essas passagens são poucas. Grande parte dos sustos não consegue produzir o mesmo efeito e acaba dependendo demais da fórmula conhecida pela franquia. Quando o filme tenta provocar medo apenas com aparições repentinas e efeitos sonoros, a experiência fica bem previsível.

A franquia parece presa à própria fórmula

Existe uma questão maior envolvendo a produção: até onde uma franquia de terror consegue continuar explorando a mesma mitologia sem começar a repetir a si mesma? ‘Sobrenatural’ chegou a um ponto em que O Além já não é mais uma novidade. O público conhece sua aparência, entende suas regras básicas e sabe que as criaturas podem atravessar a fronteira entre os dois mundos.

Por isso, a tentativa de apresentar uma nova possibilidade para esse universo é bem-vinda. O problema não está em querer mudar o caminho, mas em não conseguir aproveitar completamente essa mudança. O filme apresenta uma premissa que poderia levar a franquia para outro território, mas frequentemente recua para os sustos mais convencionais. Isso também faz com que a produção pareça mais longa do que realmente é. Há momentos em que a narrativa insiste em situações que não acrescentam muito à história, enquanto os personagens continuam sem receber o desenvolvimento necessário para sustentar emocionalmente os acontecimentos.

Veredito

‘Sobrenatural: Agora Entre Nós’ não é um desastre, mas está longe de justificar mais uma viagem. A ideia é boa e poderia render um capítulo realmente diferente, enquanto a sequência no consultório odontológico mostra que ainda existe espaço para o terror físico que fez a franquia funcionar em seus melhores momentos. A estética que antes ajudava a tornar os demônios assustadores também já não produz o mesmo impacto, mostrando que só querer ter uma ideia diferente não basta quando o desenvolvimento continua preso às mesmas soluções de sempre. O novo capítulo deixa escapar uma oportunidade de revitalização, se tornando mais uma sequência que prolonga uma fórmula que já começa a pedir descanso.

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