‘Ruas da Glória’ explora intensamente o desejo obsessivo e o luto, mas esbarra em excessos e atuações irregulares

‘Ruas da Glória’ constrói uma atmosfera profunda no Rio de Janeiro, explorando luto, obsessão e desejo em uma narrativa que algumas vezes parece irregular

Dirigido por Felipe Sholl, ‘Ruas da Glória’ acompanha Gabriel, um professor de literatura que deixa Recife após a morte da avó e chega ao Rio carregando as cinzas dela. Esse detalhe acompanha o personagem o tempo inteiro e define sua forma de se relacionar com tudo ao redor. A avó era o único vínculo afetivo seguro que ele tinha, e a ausência dela abre um vazio que atravessa toda a narrativa. A mudança de cidade funciona como um ponto de ruptura, colocando ele em um espaço onde nada parece familiar. O plano sequência inicial percorre as ruas do Rio como se fosse um olhar silencioso e distante, pela janela de um carro. O trajeto avança até chegar a áreas de cruising e pontos de prostituição, criando um corte direto no clima. Essa transição repentina coloca imediatamente o espectador no ambiente que domina a história.

Os principais acertos do filme

A condução trabalha bem o sentimento em cena. Gabriel grava vídeos no celular, falando com a avó, e esses momentos acessam o emocional mais diretamente, criando uma proximidade com o espectador. Em outro ponto, o deslocamento dentro da balada fica evidente na roupa, que contrasta com o ambiente e reforça a sensação de alguém fora daquele espaço. Esse tipo de escolha visual se repete ao longo da narrativa, sustentando um dos aspectos mais fortes da proposta. O encontro com Adriano nasce em um jogo de olhares e quebra essa barreira inicial. Antes disso, outras pessoas encaram o protagonista, mas ele ignora (ou escolhe ignorar). Quando esse olhar específico acontece, a reação vem na hora. Essa construção também acerta enquanto trabalha sentimentos através do corpo, com gestos e posicionamentos que dialogam, mesmo sem fala.

Adriano carrega um magnetismo enorme. A forma como ele se apresenta mistura sedução, mistério e intensidade, criando um interesse instantâneo, envolvendo o protagonista e também quem assiste. Existe uma curiosidade em entender aquele personagem, em acompanhar seus movimentos e intenções. Quando ele sai de cena, o desgaste emocional de Caio, cresce, e essa ausência também provoca o espectador, mantendo um nível de envolvimento que sustenta boa parte do interesse pela história.

A trilha sonora também é um ponto forte da ambientação. Existe uma mistura de darkwave com brasilidades que ajuda a segurar o clima noturno e urbano. As cenas apostam em cenas eróticas e proximidade entre os corpos, alimentando uma sensação constante de desejo. Em um primeiro momento, isso funciona muito bem, mas o filme insiste tanto nessa abordagem que começa a desgastar. Algumas se estendem além do necessário e passam a impressão de que estão ali mais para preencher tempo do que para aprofundar a relação.

Atuações que manifestam o desequilíbrio em cena

Diva Menner entrega a atuação mais potente do filme, sua presença e controle chamam atenção. Mesmo com pouco tempo, Jade Sassará contribui com essa força, sustentando sua personagem quase sem palavras, apenas com o olhar. Esse nível de entrega cria um contraste inevitável. Caio tem momentos em que acessa o personagem, mas passa boa parte do tempo contido demais, sem alcançar a intensidade que a história exige. Uma cena em que ele corre sozinho, desesperado pela rua, mostra que existe essa entrega, mas aparece pouco. Alejandro, por outro lado, não constrói variação ao longo do filme. Quando surge a oportunidade de outra cena dramática na sacada, a resposta vem com exagero corporal, quebrando completamente o peso do momento.

Existe material para explorar muito mais dos personagens ao redor, mas isso não acontece sempre. Em uma cena de diálogo mais profundo, por exemplo, a câmera permanece fixada em Caio, enquanto outra pessoa fala. Esse tipo de escolha se repete e limita o impacto das interações. O filme parece menos interessado nesses encontros do que deveria, mesmo quando eles carregam um potencial dramático maior.

Diva Menner e Jade Sassará nos papéis das icônicas Mônica e Laila
Sentença final

Ruas da Glória‘ tem uma base muito interessante, principalmente na forma como constrói atmosfera e trabalha o desejo e o luto em cena. O cuidado visual é excelente, as ideias são ótimas e existem momentos que realmente funcionam, principalmente quando apostam no silêncio, no corpo e na presença dos personagens. Ao mesmo tempo, falta controle no desenvolvimento. A repetição de situações, o excesso em algumas escolhas e a irregularidade nas atuações impedem que o impacto se mantenha até o fim. Fica a sensação de um filme que tem poder, mas não consegue erguer toda a glória que sugeriu ao longo do caminho.

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