17º Festival de Cinema Francês do Brasil: Pierre Salvadori apresenta O Beijo Elétrico em São Paulo

Novo filme de Pierre Salvadori mistura comédia romântica, golpes e dilemas emocionais em uma história sobre pessoas que tentam encontrar seu lugar no mundo. Longa integra a programação do 17º Festival de Cinema Francês do Brasil, com sessão especial em São Paulo.

O amor nem sempre chega em um momento conveniente. Às vezes, aparece quando ainda estamos tentando sobreviver às perdas, quando a vida exige escolhas difíceis ou quando a única saída parece ser uma mentira. Em O Beijo Elétrico (La Vénus Électrique), o cineasta francês Pierre Salvadori parte de uma situação improvável para construir uma comédia romântica que encontra espaço para falar de luto, desigualdade social, exploração do trabalho e das diferentes maneiras pelas quais as pessoas tentam se reconstruir.

Ambientado em Paris, em 1928, o filme acompanha Antoine Balestro (Pio Marmaï), um jovem pintor que perde a capacidade de criar depois da morte da esposa. A situação preocupa Armand (Gilles Lellouche), seu galerista, que vê o bloqueio artístico do amigo também como uma ameaça aos próprios interesses profissionais. Na tentativa de ajudar Antoine a retomar a pintura, ele acaba envolvido em uma farsa protagonizada por Suzanne (Anaïs Demoustier), uma artista de feira que, depois de entrar escondida em uma carroça para roubar comida, se vê na posição de fingir ser uma médium capaz de estabelecer contato com os mortos.

O que começa como uma encenação improvisada, ganha proporções maiores. Suzanne demonstra talento para sustentar a farsa, enquanto Armand encontra na situação uma oportunidade de recuperar o pintor e, consequentemente, seus negócios. Antoine, por sua vez, começa a reencontrar a inspiração ao acreditar que consegue se comunicar com a esposa falecida. O problema é que, conforme a mentira se prolonga, os interesses dos envolvidos deixam de caminhar na mesma direção, ganhando camadas cada vez mais delicadas.

Uma comédia romântica sobre quem precisa sobreviver

O mais interessante é a maneira como ‘O Beijo Elétrico‘ coloca a sobrevivência no centro da trama. Suzanne não entra nessa história por uma vontade gratuita de enganar alguém. Sua condição de artista de feira e a necessidade de conseguir comida ajudam a situar a personagem em uma realidade na qual talento, dignidade e honestidade nem sempre são suficientes para garantir o sustento. A fraude se transforma em uma possibilidade de sobrevivência, e a personagem precisa aprender a lidar com as consequências de uma escolha que começa como necessidade e acaba interferindo profundamente na vida de outras pessoas.

A situação também revela uma dinâmica bastante reconhecível: enquanto alguns personagens encontram maneiras de transformar a vulnerabilidade alheia em oportunidade, outros precisam improvisar para continuar de pé. Armand participa da farsa porque enxerga nela uma solução para os próprios problemas, mas Suzanne é quem ocupa uma posição mais frágil nessa relação, enquanto Antoine está tentando seguir, mesmo com o luto.

As reviravoltas ampliam esse impasse e mantêm a história em movimento, cruzando o triângulo amoroso com os jogos de interesse que sustentam o enredo. Ninguém está completamente livre de contradições, e as escolhas dos personagens carregam consequências que vão além de suas intenções iniciais.

Mulheres tristes, cada uma tentando encontrar uma saída

Uma das camadas mais interessantes de O Beijo Elétrico está nas mulheres que atravessam a história e nas diferentes maneiras como cada uma tenta encontrar seu lugar no mundo. Suzanne precisa encontrar meios de sobreviver, mas acaba dividida entre a necessidade de sustentar uma mentira e o nascimento de um sentimento verdadeiro. Camille, sua amiga, mesmo com menos espaço na trama, também tem sua própria história e representa uma relação de cumplicidade importante nessa jornada. Já Irène, a esposa falecida de Antoine, ganha novas dimensões à medida que descobrimos seu passado e seus próprios dilemas, desejos e escolhas, para além da imagem que o marido preservou dela. São mulheres que carregam dores distintas e tentam encontrar alguma forma de liberdade em meio às limitações da vida.

Um elenco que sustenta as contradições da história

O filme reúne Pio Marmaï, Anaïs Demoustier e Gilles Lellouche em três personagens cujas motivações se cruzam de maneira cada vez mais complicada. Anaïs Demoustier, que dá vida a Suzanne, tem uma trajetória reconhecida no cinema francês. Entre seus trabalhos estão A Casa de Tolerância, de Bertrand Bonello, e Alice e o Prefeito, de Nicolas Pariser. Em 2020, recebeu o César de Melhor Atriz por sua atuação em Alice e o Prefeito, reconhecimento que consolidou sua posição entre as intérpretes de destaque de sua geração.

O trio é fundamental para o funcionamento de uma narrativa em que os personagens raramente dizem tudo o que pensam ou agem por uma única razão. A história depende dessas ambiguidades: o espectador precisa acompanhar não apenas o que cada um faz, mas também o que está disposto a esconder, admitir ou sacrificar para continuar vivendo como gostaria.

Onde assistir a O Beijo Elétrico em São Paulo

O Beijo Elétrico integra a programação da 17ª edição do Festival de Cinema Francês do Brasil, que acontece de 29 de outubro a 11 de novembro de 2026, com exibições em mais de 50 cidades brasileiras. Antes da abertura oficial, São Paulo recebe sessões especiais com convidados franceses e encontros dedicados ao cinema.

A primeira sessão especial do longa na cidade está marcada para 26 de outubro, às 18h, no Cine Belas Artes, com a presença do diretor Pierre Salvadori. O filme também integra a programação regular do festival, com sessões em diferentes salas da capital ao longo de novembro.

Com 122 minutos de duração, O Beijo Elétrico é uma oportunidade de acompanhar uma comédia romântica que se desenvolve entre golpes e interesses conflitantes. No fim, talvez a questão não seja apenas descobrir se o amor consegue sobreviver a uma mentira, mas entender quantas versões de nós mesmos precisamos abandonar para conseguir seguir em frente. Algumas perdas não desaparecem, certas escolhas deixam marcas e nem toda renúncia é feita por vontade própria. Ainda assim, a vida continua abrindo espaço para encontros inesperados, mesmo quando ninguém está preparado para eles.

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