17º Festival de Cinema Francês do Brasil: ‘Uma Menina de Ouro’ questiona o preço de viver para agradar aos outros

Comédia romântica de Jean-Luc Gaget acompanha uma mulher que precisa reconhecer o próprio valor e encontra, nas contradições de quem a cerca, motivos para rever a própria vida.

“Se você quer reconhecimento, tenha um cachorrinho.” A frase, que retorna ao longo de Uma Menina de Ouro (Une fille en or, no título original), resume o humor provocador de uma história sobre pessoas que passam tanto tempo tentando corresponder às expectativas alheias que mal percebem o quanto estão deixando de lado as próprias necessidades.

No centro da trama está Clémence (Pauline Clément), uma mulher com uma autoestima profundamente afetada por uma infância complicada. Quando ela se dá conta de que nunca se sentiu verdadeiramente admirada, a morte do pai a obriga a encarar questões que estavam longe de ser resolvidas. É nesse momento que surge Paul (Arthur Dupont), um empresário autoritário que parece ter pouca consideração por quem está ao seu redor. O encontro entre os dois dá início a uma relação que desafia Clémence a reconsiderar a maneira como enxerga a si mesma e o espaço que acredita merecer no mundo.

Ninguém está livre das próprias contradições

O interessante é que o filme não restringe seus conflitos à protagonista. Bianca (Émilie Caen), Bernard (Loïc Legendre) e os demais personagens que cruzam seu caminho também carregam frustrações, inseguranças e hábitos difíceis de abandonar. Há quem transforme os próprios traumas em justificativa para tratar os outros mal, quem esteja tão esgotado pelas responsabilidades que já não consiga disfarçar o cansaço e quem tente ajudar sem perceber que seus esforços passam despercebidos. Até mesmo a vontade de fazer tudo perfeitamente, ser atencioso e nunca decepcionar ninguém pode acabar sufocando as pessoas ao redor.

Essas contradições dão mais profundidade à história. Em vez de dividir o mundo entre culpados evidentes e vítimas irrepreensíveis, Uma Menina de Ouro apresenta pessoas que machucam e são machucadas, muitas vezes sem compreender inteiramente o papel que desempenham nesses conflitos. Isso não significa que todas as atitudes sejam justificáveis, mas que existe uma distância entre entender o comportamento de alguém e concordar com ele. O passado ajuda a explicar certas reações, embora não apague suas consequências.

Como a infância molda a vida adulta

A maneira como fomos criados também ocupa um lugar importante nessa discussão. Ouvir que não devemos nos desculpar, demonstrar sentimentos demais ou chamar atenção para nossas próprias necessidades pode transformar a discrição em hábito e o silêncio em mecanismo de defesa. Na vida adulta, essas regras continuam operando mesmo quando já não fazem sentido. Aos poucos, a pessoa aprende a ceder, a evitar conflitos e a aceitar menos do que gostaria, até correr o risco de confundir generosidade com o abandono de si mesma.

É justamente por isso que a trajetória de Clémence encontra ecos nas experiências dos personagens ao seu redor. Enquanto alguns se agarram ao controle, outros tentam conquistar afeto pela utilidade, pela perfeição ou pela disposição constante de resolver os problemas de todo mundo. Cada um reage de uma forma às próprias carências, e o choque entre essas estratégias cria situações que podem ser tão desconfortáveis quanto engraçadas. A mudança de tom é outro dos acertos do longa. À princípio, o humor pode parecer mais áspero, acompanhando a dificuldade dos personagens em lidar uns com os outros. Conforme conhecemos melhor suas histórias e entendemos o que está por trás de determinadas atitudes e narrativas, ganha leveza e delicadeza, com uma compreensão maior dessas figuras, sem que suas falhas desapareçam ou precisem ser resolvidas de maneira simplista.

Uma história para fazer reconhecer o próprio valor

Dirigido por Jean-Luc Gaget, que também assina o roteiro ao lado de Raphaële Moussafir, o filme aposta nessa combinação de comédia romântica, conflitos familiares e questionamentos sobre autoestima. Pauline conduz a história de Clémence com sensibilidade, enquanto Arthur compõe em Paul uma presença dominante. A relação entre os dois movimenta a trama, somada ao conjunto de pequenas contradições humanas que faz a história ir além de um romance convencional.

Ao fim, Uma Menina de Ouro deixa a pergunta: quanto de nós mesmos estamos dispostos a sacrificar para sermos aceitos? Nem toda tentativa de agradar é altruísta, assim como nem toda pessoa difícil é incapaz de mudar. E, conforme a história avança, você pode começar a se enxergar em mais de um personagem. Além disso, é bem possível sair da sessão com “Diecimila Anni”, canção de Frédéric Norel com Fanny Norel e Dom Battaglia, ainda tocando na cabeça.

Onde Assistir?

Uma Menina de Ouro (Une fille en or) integra a programação do 17º Festival de Cinema Francês do Brasil, realizado de 29 de outubro a 11 de novembro de 2026, com sessões em salas de cinema de diversas cidades brasileiras. Em São Paulo, o filme está previsto em espaços como o Cine Marquise, o Cine Belas Artes e o Cinesystem Frei Caneca, entre outros. A programação completa, com datas, horários e locais de exibição, pode ser consultada no site oficial do festival.

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