Criador e roteirista de ‘Amor da Minha Vida’ fala sobre a emoção de ver sua obra anunciada nas ruas, a identificação do público com Bia e os temas que atravessam a nova temporada
Ver pela primeira vez o anúncio de uma obra própria em um outdoor teve um significado especial para Matheus Souza. Ao falar sobre a segunda temporada de Amor da Minha Vida, o criador e roteirista se emocionou ao lembrar que, um dia, desejou justamente ver uma criação sua ocupando aquele espaço.
“Esse projeto é uma alegria muito grande também, porque é o auge da minha carreira, em muitos sentidos, mas de uma felicidade muito grande. A frase que eu mais ouvi em todo esse processo foi ‘eu sou a Bia’. E toda vez que eu escuto isso, eu me emociono muito.”
A identificação do público com Bia também levou o roteirista a falar sobre o trabalho por trás da série e sobre a relação entre o texto e os atores. Para ele, escrever é uma atividade que acontece longe dos holofotes, já que o roteiro não é aquilo que o espectador recebe diretamente.
“O trabalho do roteirista é uma coisa muito solitária, em meio às sombras, porque o roteiro é uma obra que ninguém lê, né? O que chega é o espectador. Não é um livro, não é uma coisa que a gente publica. Ele é iluminado por holofotes que são os atores.”
É justamente nesse processo que ele coloca Bruna no centro. “E aqui nessa série a gente só tem holofotes maravilhosos”, disse, antes de destacar o impacto da atriz na construção de Bia.
“Se o texto se destaca e causa identificação, é por causa desse brilho, dessa luz que vocês trazem, e no centro disso, um sol. Que é a Bruna.”
Para ele, a capacidade de Marquezine de fazer o público se reconhecer na personagem é algo raro. “Se o meu texto causa essa identificação, é também porque eu estou escrevendo com a maior atriz da geração. É o tanto que ela tem essa facilidade de fazer as pessoas se verem nela. Isso é uma magia.” A comparação continuou com uma referência a Fernanda Montenegro. “É dos grandes do cinema, assim, é de Fernanda Montenegro. Isso é uma coisa muito mágica, ver o meu texto saindo da boca dela, assim, e se todo mundo se identifica parcialmente.”
A declaração arrancou uma resposta bem-humorada de Bruna, que entrou na brincadeira ao ouvir a possibilidade de uma nova temporada. “Ah, tá bom, Matheus. Eu topo fazer a terceira temporada, eu topo, cara. Obrigada, muito, muito obrigada.”
Uma temporada sobre errar
Na nova temporada, a série parte de personagens que continuam longe de ter todas as respostas. Para o criador, o fato de a produção estar mais madura não significa que seus personagens tenham necessariamente amadurecido na mesma proporção.
“Eu acho que, voltando para a primeira parte da conversa, a série está mais madura. Não significa que os personagens tenham amadurecido tanto assim”, explicou.
A intenção, segundo ele, é continuar observando as contradições das pessoas e transformá-las em histórias nas quais o público consiga se reconhecer. “Eu quero sempre trazer a verdade do que eu vejo, do que eu observo, a identificação.”
Essa perspectiva também aparece na maneira como a temporada revisita Bia e Victor. Se antes os dois poderiam ser vistos a partir de uma divisão mais simples entre certo e errado, a nova história procura questionar essa leitura.
“A gente tem na primeira temporada: ‘Ah, o Victor é bonzinho, a Bia, tudo errado’. Então, na verdade, o que eu busco é uma reflexão e um amadurecimento sobre a visão e o julgamento que a gente tem desses dois ao longo dessa temporada.”
A série também se coloca contra a cobrança permanente por uma versão ideal das pessoas.
“Eu vejo pouca gente madura e muita gente perdida. E muita gente se condenando por estar perdido”, afirmou. “A gente vive num mundo em que a gente sabe tudo que é errado. Tudo tem toda hora um coach: ‘Você sabia que era tal coach? Você sabia que você deveria ser assim?’”
Nesse cenário, a própria Bia se torna uma personagem importante para discutir imperfeição e julgamento. “A Bia tem que fazer para a Bia, mas a Bia não é um monstro. E muitas vezes pessoas que são erráticas se sentem monstruosas, porque o mundo está condenando elas o tempo todo.”
Por isso, uma das mensagens que o roteirista pretende deixar com os novos episódios é direta: “Errar faz parte, tá tudo bem.”
“O amor me parece que tá saindo de moda”
Além das relações entre os personagens, a segunda temporada amplia a discussão sobre o individualismo. As diferentes histórias colocam os desejos pessoais em conflito com relações amorosas, familiares e profissionais.
“Todos os personagens já logam com esse tema, o individual versus o coletivo”, explicou. Bia e Victor tentam ser um casal, enquanto outros personagens enfrentam separações, relações familiares, tentações e outras situações em que precisam decidir entre aquilo que querem individualmente e aquilo que compartilham com outras pessoas.
Para ele, essa discussão também reflete uma transformação na maneira como as pessoas se relacionam.
“E eu acho que, acima de tudo, o amor me parece que tá saindo de moda. E eu acho isso muito triste, porque isso é um fundo do individualismo das redes sociais.”
A série, então, busca recuperar justamente a ideia de conexão. “Eu acho que os filmes têm uma poesia e um jeito de querer fazer a gente se apaixonar e se conectar com o outro. E isso é uma coisa que a gente busca muito nessa série.”
A produção também ocupa um espaço que, para o roteirista, é significativo dentro da televisão brasileira recente. “Eu acho que uma das pouquíssimas séries pós-pandemia no Brasil, sem contar com novela, fizeram um sucesso sem falar de violência. Uma das poucas séries sobre amor que tá conectando.”
Ainda assim, a intenção não é transformar o amor em uma solução para todos os problemas. “Eu não tô dizendo aqui que o amor é cura. Eu não acho que o amor seja cura, mas é o melhor dipirona que existe, sabe? Para as agonias da vida, para as dores da vida, para a doença da vida, eu ainda acho que isso é o melhor remedinho que tem. E é isso que eu tento fazer com a nossa série.”
Entre a emoção de finalmente enxergar sua criação em um outdoor e a reação de pessoas que dizem “eu sou a Bia”, a nova temporada representa para o roteirista justamente esse encontro entre aquilo que nasceu no papel e aquilo que passa a existir na vida de quem assiste. No fim, é essa conexão que a série tenta colocar no centro da história. A segunda temporada de ‘Amor da Minha Vida’ estreia em 9 de outubro de 2026 no Disney+.





