Com Timothée Chalamet brilhando em uma jornada sobre fama, ego e obsessão, Josh Safdie entrega mais um drama intenso disfarçado de filme esportivo
Poucos filmes conseguem fisgar o espectador vendendo tão pouco do que realmente são. Afinal, o que diabos um filme sobre pingue-pongue poderia oferecer? ‘Marty Supreme‘ está aí para provar que pode ser TUDO, e olha, ele entrega mesmo. O longa te engana direitinho, fazendo você acreditar que vai assistir mais um filme esportivo por uns 30 minutos, antes de virar algo completamente insano e com aquela assinatura Safdie que a gente já conhece (e ama ou odeia, vai de cada um).
O filme se vende como drama esportivo, mas o verdadeiro ringue aqui não é a mesa de ping pong. O conflito real acontece no terreno minado das emoções, do ego e dos desejos obsessivos.
Padrão Safdie em Ação
Josh Safdie construiu ao longo da carreira um padrão ‘Topa Tudo Por Dinheiro‘: seus personagens tratam a fama como oxigênio. Para essa galera, ser visto é existir, ponto. Não importa o preço, a humilhação, o risco físico ou o estrago emocional. No cinema, o diretor cria uma obsessão pura que corrói por dentro e empurra esses caras para decisões cada vez mais controversas. O que torna esse padrão tão potente é justamente esse mix explosivo de desespero e esperança. Os personagens acreditam piamente que um único momento pode virar o jogo: um golpe de sorte, uma chance na frente das câmeras, um reconhecimento tardio. Essa crença move tudo.
Timothée Chalamet entrega um papel muito convincente, transmitindo ambição, frustração e controle nos mínimos gestos. A interação entre os personagens é ótima. Todo mundo tem o tempo de tela certinho para conquistar o público, seja pelo drama, pela comédia inesperada, pela cumplicidade ou pelo mistério.
Onde o Filme Tropeça
‘Marty Supreme’ é tudo menos previsível e adoro como o filme é frenético sem perder o fôlego. Mas, apesar de ser divertido e cheio de momentos inesperados, em alguns pontos o longa acaba sendo bastante formulaico.
O grande problema está numa subtrama de gângster mal desenvolvida que funciona basicamente como enchimento de linguiça. Diferente de ‘Joias Brutas‘ (2019), onde toda a loucura que acontecia com o personagem de Sandler fazia sentido completo para o mundo que ele habitava e para a pessoa que ele era, aqui parece que as coisas acontecem mais pra servir à trama do que pra construir o protagonista organicamente. Marty é um jogador de pingue-pongue, não um apostador maluco de casa de penhores. A quantidade de situações extremas que acontecem com ele num período tão curto parece difícil de engolir. O filme se propõe realista demais pra tanta coisa surreal estar rolando ao mesmo tempo.
Veredicto Final
No fim, ‘Marty Supreme’ é uma experiência que, durante 2h30, te pega desprevenido e não solta mais. Safdie consegue mais uma vez criar aquele clima frenético e sufocante que já conhecemos tão bem, com Timothée entregando uma atuação extremamente provocante (para o bem e para o mal).
O filme funciona lindamente quando explora seu verdadeiro tema: a obsessão pela fama como armadilha existencial, mostrando personagens que priorizam o reconhecimento acima de qualquer coisa. Te surpreende, te incomoda e te faz refletir sobre o preço real da validação externa. Pode não ser perfeito, mas no fim das contas entrega muito mais do que a maioria consegue.