Premiado em festivais como o Festival de Brasília e a Mostra Ecofalante, documentário de Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel acompanha mulheres à frente de Cozinhas Solidárias do MTST
‘Não Existe Almoço Grátis’ estreia comercialmente nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 3 de setembro, com distribuição da Descoloniza Filmes. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o documentário acompanha Bizza, Jurailde e Socorro, três mulheres negras que coordenam uma Cozinha Solidária do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em Sol Nascente, no Distrito Federal, enquanto se preparam para receber centenas de militantes durante a posse presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023.
O filme parte da experiência dessas mulheres para mostrar como a fome se agravou durante a pandemia de Covid-19 e como a organização comunitária passou a ocupar um espaço importante no enfrentamento da crise. Ao mesmo tempo em que registra o trabalho necessário para preparar e distribuir centenas de refeições, a produção acompanha histórias pessoais marcadas por dificuldades, perdas e pela busca por autonomia.

Três histórias que se encontram na cozinha
As trajetórias das protagonistas aparecem de maneira não linear e ajudam a ampliar a discussão para além da distribuição de alimentos. Bizza luta pela construção da própria casa e sonha em abrir um negócio no terreno conquistado através do MTST. Jurailde estabelece uma relação com a terra a partir de sua ancestralidade indígena e das experiências de trabalho infantil. Já Socorro encontra na formação da própria família uma maneira de reconstruir a relação consigo mesma depois de ter sido abandonada pelo pai ainda na infância.
Essas histórias pessoais são colocadas lado a lado com o funcionamento da Cozinha Solidária, criando um retrato em que as experiências individuais não estão separadas da organização coletiva. O trabalho cotidiano para alimentar outras pessoas se torna também uma forma de resistência e de construção de comunidade.
A produção também utiliza Brasília como parte importante de sua narrativa. O contraste entre a região periférica de Sol Nascente e os espaços ligados ao poder político reforça a distância social presente no Distrito Federal, enquanto a preparação para a posse presidencial coloca aquelas mulheres no centro de um acontecimento de grande dimensão política.
Documentário foi premiado antes da estreia comercial
Antes de chegar ao circuito comercial, ‘Não Existe Almoço Grátis’ passou por importantes festivais brasileiros e acumulou reconhecimento do público e dos júris. A trajetória começou no 27º ForumdocBH, na Mostra Contemporânea Brasileira, e passou pela 56ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e uma Menção Honrosa do Júri Oficial.
Na 13ª Mostra Ecofalante de Cinema, o documentário voltou a conquistar o público e venceu novamente o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular. O longa também integrou a Mostra Foco da 13ª edição do Olhar de Cinema e a Competitiva Nacional do 31º Festival de Cinema de Vitória, recebendo outra Menção Honrosa do Júri Oficial. Na 21ª Mostra do Filme Livre, ainda foi reconhecido com o Prêmio Destaque.
A recepção também chamou atenção para a maneira como o filme aproxima as histórias das protagonistas de questões maiores, como desigualdade, fome e organização social. Em vez de tratar essas mulheres apenas como personagens de um contexto de vulnerabilidade, a produção coloca suas ações e escolhas no centro da narrativa.
Onde assistir
‘Não Existe Almoço Grátis’ estreia comercialmente em 3 de setembro, com sessões em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Cuiabá, Fortaleza, João Pessoa, Penedo, Poços de Caldas, Porto Alegre e Salvador. A classificação indicativa é de 10 anos.
No Rio de Janeiro, uma sessão especial seguida de debate acontece no próprio dia 3, às 21h, no Cine Estação Claro Rio, em Botafogo. Após a projeção, o público poderá acompanhar uma conversa com a presença dos diretores Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, além de uma das protagonistas, Socorro Rodrigues, e Caio Prado (cantor e compositor). A conversa será mediada pela jornalista e diretora Gizele Martins. Uma sessão acompanhada de debate em Salvador também está prevista, com informações ainda a serem divulgadas.
Ao acompanhar a rotina de Bizza, Jurailde e Socorro, o documentário transforma uma cozinha comunitária em ponto de encontro entre histórias pessoais e questões que atravessam o país. A proposta é mostrar que, diante da fome e da desigualdade, a resposta também pode nascer da organização de quem decidiu cozinhar, repartir e lutar coletivamente.

