A adaptação do clássico de Emily Brontë chega aos cinemas com proposta ousada: transformar romance gótico do século XIX em experiência contemporânea sem perder a essência destrutiva do amor obsessivo que define a obra.
É muito difícil um filme agradar a todo mundo e, nesse caso, a sala ficou bem dividida. O problema é que, quando os comentários negativos fazem sentido, você começa a se perguntar se seu gosto é duvidoso por gostar daquilo. Às vezes até repensa, assiste com outros olhos para tentar gostar ou desgostar. ALERTA EFEITO MANADA!!
Nesse caso, é possível gostar, mesmo com os olhares negativos existentes. De minha parte, preciso deixar claro que foi uma experiência única e exclusiva com o filme. Entrei na sala sem expectativa prévia, e isso talvez tenha ajudado a me entregar totalmente. Não sabia da história, nunca li o livro e não sabia o que tem de diferente entre um e outro. Com certeza, aqueles que não gostaram vêm dessa expectativa entre uma obra e outra.
Amor que machuca de todos os jeitos possíveis
O primeiro ponto que pega forte é a forma como o amor pode te maltratar e virar algo cruel quando não é correspondido. E isso vem de todos os lados porque a história não fecha só nos protagonistas. Um amor que te cega até você ser bom demais e se anular, ou até preferir humilhação em vez de distância, esquecer suas convicções ou virar obsessivo.
É fato que todos os personagens precisam muito de terapia e que todos são levados a um extremo que pode desconectar algumas pessoas por achar absurdo demais. Mas se você se conecta com o filme, consegue explorar cada caminho absurdo de amar, odiar e amar cada um deles. É desconfortável, mas real naquele nível que dói reconhecer. Os personagens são complexos, tomam decisões terríveis motivadas por sentimentos ainda piores. E é justamente isso que torna tudo tão humano. Você torce por eles mesmo sabendo que estão seguindo caminhos destrutivos.
Visuais impecáveis
A produção entrega um visual tão lindo, que te deixa facilmente deslumbrado. Tem aquele toque escuro fechado de romance gótico, mas com momentos em que isso se mistura com cores saturadas, principalmente em tons de vermelho, que me prendia na tela como ímã. Os figurinos são impecáveis e a troca de cenários traz um olhar muito envolvente de que o amor nasce em todo lugar. Não é a atmosfera que traz isso, e sim as pessoas. O amor pode nascer no lixo, assim como pode não florescer numa terra encantada, por assim dizer. Essa contradição visual reforça a mensagem do filme inteiro.
Cada frame parece pintado à mão, pensado nos mínimos detalhes. A fotografia trabalha a favor da narrativa, usando luz e sombra para amplificar emoções já intensas. Quando o vermelho domina a tela, você sente a paixão queimando. Quando tudo escurece, o desespero aperta.
A cena final arrebatadora
Como observação pessoal, a última cena me fez chorar e não foi pouco. Geralmente, choro bastante em filmes, confesso que me emociono bem fácil. Mas existem níveis: onde a lágrima ameaça cair, outros em que cai uma, mas depois está tudo bem. Aqui senti a garganta fechar e a visão ficar borrada. Foi aquele choro que não dá para segurar nem disfarçar. E olhando ao redor, não estava sozinho nessa.
O desfecho amarra tudo dolorosamente. Não é final feliz convencional, nem tragédia gratuita. É conclusão honesta sobre o que foi construído durante todo o filme. Machuca porque faz sentido, porque você sabia que ia doer, mas torcia para estar enganado.
Filme de época, mas trilha sonora atual
A trilha sonora é outro acerto na atmosfera do filme. Encaixam no filme que se passa em 1801 para frente, e ao mesmo tempo parecia uma playlist atual. Essa mistura temporal funciona porque as emoções são universais. Amor, dor, obsessão não mudaram tanto assim desde 1800. A música contemporânea traz essas emoções atemporais para perto da gente. Obrigado Charli XCX!
Não vai agradar todo mundo, e tá tudo bem!
Definitivamente, não será um filme que irá agradar a todos. Existem essas questões específicas sobre abraçar demais o drama, história longa e muitos exageros que podem afastar quem não se envolve com isso com facilidade. É melodramático assumidamente, e quem não curte esse tipo de coisa vai sofrer.
Mas se você não tem problema com nada disso e sentiu curiosidade, separe os lenços. No fim das contas, é um filme sobre sentir demais num mundo que pede pra você sentir de menos. Sobre amar errado, sofrer alto e ainda assim não conseguir parar. Para quem se permite mergulhar nessa intensidade toda, a recompensa é imensa. Para quem prefere algo mais contido, talvez seja arrastado demais. E tudo bem, cinema é sobre isso também: encontrar o que combina com você.