Com Alexandra Lamy e Julien Le Berre, drama de Yann Samuell acompanha uma professora em busca de redenção e um adolescente difícil de compreender em uma jornada que desafia os julgamentos do espectador.
Compostela, o Caminho da Terapia (Compostelle, no título original) começa com Fred (Alexandra Lamy) diante das consequências de ter perdido o controle: após dar um tapa em uma aluna, a professora é suspensa do trabalho. A situação contrasta com a dedicação que marcou sua trajetória profissional, a ponto de os próprios estudantes demonstrarem carinho por ela com flores. Mas, por trás desse reconhecimento, existe uma mulher que colocou o trabalho acima de praticamente todo o resto, deixando a vida pessoal e os vínculos familiares em segundo plano.
Agora, Fred precisa encontrar uma maneira de seguir em frente, lidar com o julgamento dos outros e tentar se reconectar com a própria família. Sua participação em um programa de acompanhamento de jovens em dificuldade representa uma oportunidade de recomeçar, embora a redenção não seja tão simples quanto aceitar uma nova responsabilidade. O passado continua presente, e a tentativa de reparar os próprios erros exige que ela encare questões que preferiria deixar para trás.
É nesse contexto que Fred conhece Adam (Julien Le Berre), um adolescente marcado pela raiva e pelo sentimento de abandono. Os dois precisam percorrer juntos o Caminho de Santiago, experiência que promete afastá-lo de comportamentos destrutivos e oferecer a ambos uma oportunidade de transformação. Naturalmente, a convivência começa com conflitos, provocações e muita resistência.
Um adolescente que testa a paciência do espectador
Adam é um personagem que exige bastante do público. Sua agressividade, suas reações impulsivas e a dificuldade de estabelecer uma relação de confiança tornam a aproximação com ele um exercício de paciência. O filme procura revelar o que existe por trás desse comportamento, mas nem sempre é fácil acompanhar suas atitudes sem sentir irritação. Dependendo da experiência de cada espectador, a compaixão pode surgir rapidamente ou encontrar uma resistência considerável.
Julien Le Berre merece reconhecimento por esse trabalho. Suas expressões, seus gestos e sua postura corporal acompanham a intensidade emocional de Adam, transmitindo a impressão de que o personagem está sempre prestes a explodir. Essa entrega torna suas reações convincentes, inclusive nos momentos em que ele parece deliberadamente impossível de suportar. É uma interpretação que ajuda a sustentar a tensão da relação com Fred e impede que o adolescente se torne uma figura abstrata em uma história sobre superação.
Compreender alguém significa perdoar suas atitudes?
Uma das questões mais interessantes de Compostela, está nessa dificuldade de separar a compreensão de uma pessoa da aceitação de seu comportamento. Até que ponto precisamos conhecer o passado de alguém para entender suas atitudes? E, quando descobrimos as feridas que contribuíram para tornar essa pessoa agressiva ou difícil de conviver, isso muda nossa responsabilidade diante dela?
O filme insiste na possibilidade de enxergar Adam para além de seus erros, mas essa escolha também pode provocar desconforto. Em alguns momentos, existe dificuldade de conexão com o personagem, justamente porque suas atitudes tornam a convivência tão desgastante quanto a narrativa sugere. Conhecer sua história ajuda a compreender sua raiva, mas não elimina automaticamente o impacto que ela provoca nos outros. Ao mesmo tempo, esperar que alguém consiga mudar sem oferecer qualquer oportunidade de reconstrução pode significar condená-lo a repetir indefinidamente os mesmos erros. O filme se interessa por esse espaço incômodo entre responsabilização e acolhimento, ainda que, por vezes, pareça mais empenhado em humanizar Adam do que em explorar as consequências de suas atitudes para quem convive com ele.
As paisagens são outro espetáculo à parte
Se os conflitos entre Fred e Adam podem tornar a caminhada emocionalmente desgastante, as paisagens oferecem um respiro bem-vindo. Os cenários abertos, as estradas extensas e a dimensão dos espaços naturais dão ao filme uma beleza particular. A fotografia valoriza a sensação de distância e deslocamento, fazendo com que acompanhar os personagens seja, em muitos momentos, como viajar ao lado deles.
A escolha de acompanhar uma peregrinação também funciona para além do apelo visual. Caminhar exige tempo, disposição e a capacidade de continuar mesmo quando o corpo pede uma pausa. A experiência coloca os personagens diante de situações que não podem ser resolvidas imediatamente e os obriga a dividir o mesmo espaço, inclusive quando prefeririam estar longe um do outro.
Fé, espiritualidade e diferentes maneiras de encontrar sentido
Outro ponto interessante é a maneira como o filme aborda a fé. Embora a peregrinação a Santiago de Compostela esteja profundamente associada à tradição cristã, Fred e Adam não são apresentados como pessoas que acreditam em Deus. Isso permite que a jornada seja explorada por uma perspectiva mais aberta, sem transformar a experiência em uma defesa explícita da religião.
O caminho ganha significado a partir de diferentes pontos de vista: pode representar uma oportunidade de recomeço, uma forma de confrontar o próprio passado ou simplesmente um período de afastamento da vida habitual. A espiritualidade aparece, assim, menos como uma resposta pronta e mais como uma possibilidade de reflexão. Não é necessário compartilhar uma crença religiosa para compreender o valor simbólico de uma experiência que exige silêncio, persistência e disposição para olhar para si mesmo.
Uma história inspirada em experiências reais
Dirigido por Yann Samuell e escrito em parceria com Paul Rotman, Compostela foi inspirado no livro de relatos Marche et invente ta vie, de Bernard Ollivier, e nas experiências de jovens que participaram de caminhadas de reinserção organizadas pela associação francesa Seuil. O projeto oferece a adolescentes em situação de vulnerabilidade a possibilidade de percorrer longas distâncias a pé, acompanhados por uma pessoa responsável, como alternativa à resposta puramente punitiva. Adam não simboliza somente um adolescente fictício que precisa aprender a controlar a raiva, mas também jovens que frequentemente são definidos pelos próprios erros antes de terem a oportunidade de construir outra trajetória. Em entrevistas sobre o filme, Samuell destacou a importância de conhecer as experiências de participantes reais para compreender melhor os desafios enfrentados por eles.
Ainda assim, a vontade de transmitir essa mensagem às vezes pesa sobre a narrativa. Ao insistir na humanização do adolescente, o filme corre o risco de conduzir demais a reação do público, como se fosse necessário garantir que todos compreendam Adam da mesma maneira.
Alexandra sustenta o percurso de Fred com uma interpretação que equilibra firmeza, desgaste e vulnerabilidade. Sua personagem também precisa reconhecer as próprias falhas e entender como a dedicação ao trabalho contribuiu para afastá-la de outras partes da vida. A dedicatória à mãe, que aparece no encerramento, também acrescenta uma dimensão afetiva à experiência. É um detalhe que conversa com as tentativas de reconciliação presentes no filme e com a ideia de que recomeçar não significa apagar o que aconteceu, mas encontrar outra maneira de conviver com o passado.
Onde assistir a ‘Compostela, o Caminho da Terapia’?
Compostela, o Caminho da Terapia integra a programação do 17º Festival de Cinema Francês do Brasil, que acontece de 29 de outubro a 11 de novembro de 2026, com exibições em salas de cinema de diversas cidades brasileiras. Para conferir as sessões, os horários e os cinemas participantes, consulte a página oficial do filme no site do festival. A distribuição brasileira é da Pandora Filmes