O Outro Lado das Redes: os segredos por trás do império de Zuckerberg

Com Mikey Madison no papel de Frances Haugen, novo filme de Aaron Sorkin transforma uma investigação jornalística em um thriller sobre desinformação, radicalização e o poder das redes sociais

Quase duas décadas depois de transformar a criação do Facebook em um dos dramas mais marcantes sobre tecnologia e ambição, Aaron Sorkin retorna ao mesmo universo com uma história totalmente diferente. Em ‘O Outro Lado das Redes‘, o roteirista de A Rede Social acompanha Frances Haugen (Mikey Madison), ex-funcionária da empresa que decide colaborar com o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) na investigação que ficaria conhecida como Facebook Files. Jeremy Strong interpreta Mark Zuckerberg em uma trama que atravessa os anos anteriores à pandemia, a crise provocada pela COVID-19 e a crescente radicalização política nos Estados Unidos.

O Outro Lado das Redes – Pôster

O que funciona

A escolha de Frances como protagonista é um dos maiores acertos do filme. Sorkin apresenta uma mulher reservada, inteligente e pouco interessada em ocupar o centro das atenções. O conflito aparece justamente quando ela percebe que o funcionamento interno da empresa contradiz aquilo que acreditava ser o propósito da plataforma, e Madison sustenta essa característica com uma atuação bastante controlada.

A investigação conduzida ao lado de Jeff Horwitz dá ao filme uma segunda perspectiva. Enquanto Frances conhece os mecanismos internos da companhia, Jeff precisa verificar informações, estabelecer conexões e transformar uma quantidade enorme de documentos em uma investigação jornalística compreensível. A parceria entre os dois mantém aquela narrativa investigativa em movimento, evitando que o longa se transforme em uma sequência entediante de explicações sobre tecnologia.

Sorkin também encontra um tema bastante promissor ao mostrar como decisões aparentemente técnicas podem produzir consequências sociais enormes. O algoritmo passa a fazer parte do conflito. Quanto mais uma publicação provoca reação, mais valor ela pode adquirir dentro da lógica da plataforma. A discussão não fica limitada ao Facebook ou à figura de Zuckerberg. A história mostra como a circulação de teorias conspiratórias, discursos de ódio e informações falsas pode alterar o comportamento de pessoas comuns, especialmente quando determinados conteúdos são constantemente reforçados.

Jeremy segue uma direção diferente da interpretação de Jesse Eisenberg no filme de 2010. Seu Zuckerberg é mais velho, mais poderoso e muito menos interessado em demonstrar qualquer necessidade de aprovação. A fala calculadamente lenta e a postura rígida criam uma figura quase desconectada do ambiente ao redor, reforçando a distância entre o empresário e as consequências das decisões tomadas por sua companhia.

 Jeremy Strong como Mark Zuckerberg em ‘O Outro Lado das Redes’

O que não funciona

Um dos poucos problemas é que a nova produção nunca encontra uma identidade visual tão forte quanto a de A Rede Social. Sorkin sabe exatamente como construir uma discussão, organizar informações e criar confrontos verbais, mas sua direção não possui a mesma precisão cinematográfica que David Fincher levou ao filme anterior. Poderia não ser um filme que fica à sombra do anterior, mas isso fica ainda mais evidente porque alguns profissionais envolvidos na produção retornam ao universo visual da obra original.

A estrutura também pode afastar parte do público. A história salta entre diferentes momentos de 2019 a 2021 e conecta acontecimentos pessoais, investigação jornalística e acontecimentos políticos. A montagem permite compreender a progressão dos fatos, mas o roteiro nem sempre confia na capacidade do espectador de estabelecer essas relações sozinho.

Veredicto final

O Outro Lado das Redes funciona melhor se você for assistir como um drama jornalístico superinteressante, sobre as consequências da tecnologia. Apesar de ser indiretamente do mesmo universo de A Rede Social, não deve ser conduzido com a mesma expectativa. Aaron Sorkin encontra bons personagens e um conflito muito relevante, mas sua direção oferece ao material uma força cinematográfica mais contida do que a de David Fincher encontrou no filme de 2010.

Mikey Madison é o principal motivo para acompanhar a produção. Frances ganha uma dimensão mais humana, impedindo a história de virar apenas uma exposição sobre algoritmos, enquanto Jeremy Allen White cria uma boa parceria com a atriz. Jeremy Strong, por sua vez, constrói um Zuckerberg deliberadamente irritante de observar (o que é bom e funciona para a história). O filme também acerta ao ampliar sua discussão. O verdadeiro alvo não é só o Mark Zuckerberg ou uma empresa específica, mas um modelo de comunicação que consegue transformar medo, raiva e conflito em combustível para manter as pessoas conectadas.

No fim, não é um novo A Rede Social, e ainda bem. Porque tentar reproduzir aquela experiência seria uma das piores escolhas possíveis. Como obra independente dentro do mesmo universo, “O Outro Lado das Redes” encontra uma questão importante para discutir e oferece uma visão necessária sobre o preço que continuamos pagando pelo modo como consumimos informação na internet.

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