Dirigido por José Eduardo Belmonte, longa transforma o assalto ao Banestado, em Londrina, em uma história de ação, drama e comédia, revisitando um episódio inusitado do Brasil.
No dia 5 de novembro, chega aos cinemas brasileiros ‘Assalto à Brasileira‘, novo filme de José Eduardo Belmonte, inspirado no assalto à agência do Banestado em Londrina, no Paraná, ocorrido em dezembro de 1987. Na ocasião, um grupo de criminosos amadores invadiu o banco e fez mais de 300 pessoas reféns, protagonizando o maior assalto do país em número de pessoas mantidas em cativeiro. O episódio repercutiu ainda por conta da reação de parte da população, que acompanhou a movimentação do lado de fora e passou a torcer pelos assaltantes.
Na história, Murilo Benício interpreta Paulo, um jornalista que acaba de perder o emprego e vai até o banco sacar o dinheiro de sua rescisão. Mas a situação se torna desesperadora quando ele se vê no meio do assalto. Em vez de somente tentar escapar, Paulo enxerga uma oportunidade de recuperar a carreira e se aproxima dos criminosos, usando sua experiência profissional para ajudar nas negociações com a polícia. Do lado de fora, a população e a polícia acompanham cada novo acontecimento.

O elenco está muito bem em seus respectivos papéis. Como sempre, Murilo consegue entregar um protagonista de fácil identificação social. Paulo tem uma esposa esperando por ele em casa, carrega a perspicácia de quem conhece as dificuldades da vida de trabalhador e demonstra jogo de cintura e coragem para lidar com uma situação bem fora do comum. É um bom herói popular, alguém que não precisa ser extraordinário para encontrar uma maneira de agir quando tudo parece estar dando errado.
Em contrapartida, Christian Malheiros também conduz muito bem Moreno, um dos criminosos envolvidos no assalto. O ator consegue equilibrar a postura de alguém que precisa manter o controle de um crime e os momentos mais afetivos com as pessoas mantidas como reféns. Essa alternância revela um personagem que não é apresentado como alguém inteiramente mau, mas a humanidade não apaga a carga de suas escolhas. É justamente nesse equilíbrio entre os dois lados que a história ganha força.
O filme tem uma pegada Robin Hood e aquela dinâmica de La Casa de Papel. Essa aproximação acontece dentro do banco, com os criminosos e os reféns, e também do lado de fora, onde a polícia tenta controlar a situação enquanto a população acompanha tudo e começa a torcer pelos assaltantes. A trilha sonora também contribui bastante para essa ambientação. Com uma sonoridade que resgata a brasilidade dos anos 1980, as músicas ajudam a transportar o espectador para aquele período. Em alguns momentos, a experiência chega a lembrar uma cobertura jornalística acompanhada pela televisão, como se estivéssemos diante de uma transmissão dos acontecimentos em tempo real.
O que deveria ter ganhado mais espaço
Um aspecto que senti falta foi um desenvolvimento maior da relação entre os criminosos e o público do lado de fora. Em pouco tempo, os bandidos deixam de ser somente os responsáveis por um crime e passam a ser ovacionados pelas pessoas reunidas na porta. É verdade que essa simpatia popular é um dos pontos centrais da história real e que o espectador já compreende parte das razões por trás dessa reação. Ainda assim, considerando a ordem dos acontecimentos apresentada pelo longa, a aproximação entre esses dois lados parece acontecer repentinamente.
É um ponto que poderia ter recebido mais atenção, principalmente porque a reação da população é uma das características mais particulares desse episódio. Por outro lado, não chega a ser algo que deixe a narrativa sem explicação. O contexto social e econômico da época já faz parte do imaginário de quem conhece minimamente a história do país, e o filme consegue aproveitar essa familiaridade para construir a situação sem precisar interromper constantemente a ação para justificá-la.
Assalto à Brasileira é um ótimo filme para quem gosta do gênero e pode conquistar até quem não costuma procurar histórias de assalto. A produção equilibra muito bem ação, drama e até comédia, encontrando espaço para diferentes tons sem perder o interesse pelo desenrolar dos acontecimentos.
Além disso, o fato de ser baseado em uma história real funciona como um chamariz bastante eficiente. É difícil não ficar imaginando para onde tudo vai, quem realmente acabou preso e como foi possível chegar àquele desfecho. E, quando acaba, vem aquela vontade de pesquisar a vida das pessoas envolvidas e descobrir como estão hoje em dia. Inclusive, spoiler leve: o próprio filme oferece um pequeno gostinho disso nos créditos.
No fim, é mais um lançamento que prova como a realidade do país consegue produzir situações que rendem nos cinemas. Como diz no longa: “Pense no absurdo: ele já aconteceu no Brasil!”.




