Dirigido por Alan Deberton, Feito Pipa aborda preconceito, relações familiares e descobertas da infância com delicadeza, humor e emoção.
Quando entrevistei o Alan Deberton, diretor de Feito Pipa, perguntei como ele conseguiu equilibrar duas vertentes tão distintas: de um lado, a rejeição de um pai ao filho queer; do outro, a inocência, a espontaneidade e a leveza que acompanham a infância. Depois de assistir ao filme, entendi bem a resposta e a dimensão dessa escolha. A experiência me acertou de tantas maneiras que acabou se tornando um dos filmes mais especiais que já assisti.
O longa não esconde o preconceito nem a repreensão que Gugu enfrenta. Existem momentos que provavelmente vão encontrar um lugar doloroso na memória de quem já passou por experiências semelhantes. Ainda assim, Deberton não transforma essas situações em um espetáculo de sofrimento. Seu pai não é apresentado como alguém que odeia o filho ou deseja afastá-lo. Pelo contrário, é um homem que tenta se aproximar, demonstra carinho à sua maneira e procura agradá-lo, mas carrega uma ignorância profundamente enraizada, que interfere na forma como expressa esse amor. Existe uma diferença muito grande entre retratar um pai que simplesmente rejeita o filho e mostrar alguém que ama, mas não consegue compreender determinadas partes de quem ele é. Isso não diminui o sofrimento provocado por suas atitudes, nem torna a repreensão menos dolorosa. Porém, apresenta uma relação muito mais complexa e reconhecível, na qual afeto e ignorância podem coexistir, mesmo quando um deles machuca profundamente o outro.

O bullying na escola também faz parte da trajetória de Gugu, mas o filme encontra uma maneira leve de trazer essas experiências sem abandonar o olhar infantil. As crianças continuam sendo crianças: são unidas, engraçadas, brincam, inventam soluções mirabolantes para os problemas e encontram diversão até nas situações mais inesperadas. E é essa convivência entre momentos difíceis e descobertas divertidas que torna a história tão especial. Acompanhamos dores que podem atravessar a infância inteira, mas também reencontramos aquela liberdade de experimentar o mundo sem compreender completamente suas regras. Seja na relação de Gugu com a avó, nas dificuldades com o pai ou nas amizades que constrói, existe uma espontaneidade que impede a narrativa de ficar presa ao sofrimento.
Durante a sessão, me vi lembrando de situações da minha própria infância. Quando meu pai de criação me repreendeu ao me encontrar experimentando maquiagem por curiosidade. O desconforto daquele momento, mas também a bagunça, a descoberta e a diversão que existiam naquela experiência. Também me lembrei das vezes em que meu pai me colocava na frente dele na bicicleta, pedalando enquanto eu segurava o guidão e tinha a sensação de ser um piloto. Pensei nele em diferentes momentos: nas situações difíceis, mas também naquelas em que tentava demonstrar seu amor, mesmo com um jeito mais truculento e nem sempre capaz de encontrar as palavras certas.
Vieram à memória as amigas da escola, as ocasiões em que fui repreendido por ser delicado demais e até as vezes em que precisei assumir responsabilidades de ser o homem da casa, sem sequer entender direito o que esperavam de mim. São lembranças muito particulares, mas que encontram espaço em uma história tão diferente. Talvez essa seja uma das maiores qualidades de Feito Pipa: a capacidade de fazer o espectador reconhecer a própria infância em uma trajetória que não é necessariamente igual à sua. Não é preciso ter vivido exatamente as mesmas situações de Gugu para compreender a sensação de ser repreendido por algo que fazia parte de sua personalidade, de tentar corresponder às expectativas dos adultos.
No fim, ‘Feito Pipa’ é uma história sobre coragem, descobertas, liberdade e, acima de tudo, sobre amor. Um amor que nem sempre sabe se expressar da maneira certa, que pode conviver com erros e contradições, mas que também é capaz de deixar lembranças que nos acompanham por toda a vida. O longa de Allan Deberton chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro de 2026, com distribuição da Paris Filmes