‘MICHAEL’ conta a vida do Rei do Pop da infância ao álbum Bad, sem poupar Joe Jackson. Jaafar Jackson surpreende, Colman Domingo assusta e o filme deixa 22 anos de história para uma continuação.
Trabalhar um recorte da vida de Michael Jackson não é uma tarefa simples, já que tudo começa ainda na infância, dentro do The Jackson 5. O filme reconhece isso e inicia exatamente ali, sem suavizar a figura do pai, que surge como o grande antagonista dessa fase. A narrativa acompanha essa trajetória desde os anos 60, atravessa o impacto de Thriller entre 1982 e 1985 e utiliza o lançamento de Bad, em 1987, como ponto final. O encerramento chega pouco antes dos 29 anos, dando a sensação de que ainda havia mais a explorar. A experiência se aproxima da leitura de um diário, acompanhando os acontecimentos pelo ponto de vista do próprio Michael, sempre centrado nos momentos mais marcantes desse período.
A cinebiografia funciona muito bem ao assumir o formato de musical jukebox, aquele tipo de filme que utiliza músicas já conhecidas do artista para conduzir a narrativa, encaixando os sucessos em momentos-chave da história. No roteiro, John Logan não evita a questão que sempre rondou a figura do artista. A infantilidade aparece ligada diretamente à criação, além de uma fantasia que cresce ao longo dos anos. A presença de Peter Pan surge desde cedo, refletindo esse desejo de permanecer em um lugar que ele nunca teve de verdade.

Juliano Krue Valdi entrega bastante enquanto vive o Michael na infância, principalmente na forma como usa o corpo para expressar medo e tensão. O desconforto aparece no olhar, nos gestos contidos e na dificuldade de encarar o pai durante as apresentações. Sem precisar exagerar, ele consegue transmitir essa pressão. Já Colman Domingo, domina o ambiente com presença, criando um clima pesado mesmo em silêncio. A relação entre os dois sustenta boa parte dessa fase inicial. As cenas com os irmãos, os ensaios e as aparições na TV passam uma sensação de registro de época, com figurinos coloridos e aquela energia característica do grupo em palco.
Mesmo com a quantidade de nomes presentes, fica claro que o filme também se constrói como um mosaico de quem aceitou participar. Figuras como Quincy Jones, Suzanne de Passe, Walter Yetnikoff e LaToya ajudam a montar esse retrato, enquanto ausências importantes, como Janet e Jermaine Jackson, acabam chamando atenção. Entre esses momentos, aparece a adoção do macaco de estimação, sugerindo um tom mais leve e funcionando bem no conjunto, trazendo um respiro em meio ao peso dramático que domina a maior parte da história.
Além do drama pessoal e dos bastidores, a recriação da energia de palco é um dos principais destaques. A entrega e a escala das performances aparecem com força, sustentadas pelo trabalho de Jafar, que reproduz movimentos e presença, quase como um show dentro do filme. Um dos maiores atos do filme, é a recriação do clipe de Thriller, com figurino, maquiagem e ambientação, funcionando como um making of integrado à narrativa. Yudo ganha ainda mais impacto no cinema, com um desenho de som bem distribuído e uma mixagem que valoriza cada camada musical, além de uma composição de imagem pensada para tela grande, ampliando a sensação de imersão.

Um dos pontos que mais levanta dúvida é justamente se o filme entra nas acusações de abuso contra o Michael. O assunto não aparece, e isso também se explica pelo recorte escolhido, já que a narrativa não chega nesse período da vida do artista. Ainda assim, fica aquela curiosidade sobre como seriam os bastidores e o estado emocional dele diante de tudo isso. Em vez de seguir por esse caminho, o foco recai na forma como ele se conectava com crianças e adolescentes, muito ligada à infância que não teve por trabalhar desde cedo. A solidão aparece nas relações com animais, no interesse por brinquedos e em momentos mais leves, como quando responde a um fã mirim em uma loja ou durante visitas a hospitais.
Existe um receio de que o filme siga um caminho mais “chapa branca” e tente suavizar a figura do Michael, como se não houvesse contradições. Só que, dentro do recorte escolhido, essa imagem faz sentido com o que é mostrado. A trajetória até ali segura esse olhar, mesmo deixando de fora pontos mais controversos. Também existe uma expectativa de que temas externos, como as acusações judiciais, apareçam, mas o período retratado não alcança essa fase. O próprio filme sugere continuidade, o que não surpreende considerando o quanto ainda existe para contar. Ficam de fora mais de duas décadas de vida, passando por Bad, a autobiografia, Neverland, Dangerous, Heal The World, os casamentos, os filhos e os últimos trabalhos. Ainda assim, dentro do que se propõe, é uma obra que funciona e entrega uma experiência que vale a pena.